quarta-feira, 16 de março de 2011

Precisa-se de empregado

É uma frase que já não se vê muito por aí, afixada nas vitrinas das lojas, porque o que as lojas procuram é colaboradores e não empregados.
Empregado soa mal, não tem o requinte e o charme que atraia a pessoa a sentir-se integrada como um "colaborador".
No fundo é tudo a mesma coisa, mas há pessoas que não sabem e pensam que o colaborador está associado à parte administrativa da coisa, à parte em que se tem muita responsabilidade e o ordenado não é tão merdoso, ou não, à parte burocrática, à parte em que toda a gente a trata por Sr(a) Dr(a), à parte em que a vestimenta de trabalho é um fato barato a parecer que é caro, à parte em que se tem um estacionamento reservado, etc.
E como tal, há pessoas que nem entram nessas lojas com medo de parecerem demasiado labregas para "o" cargo.

Gozando com a minha ignorância, há uns anos descobri que assessor era exactamente igual a assistente. Nesse momento de descoberta, ri-me muito de mim mesmo.
Sempre que ouvia falar em assessor pensava:"Eh lá!!Deve ser Deus no céu e o assessor na Terra" ou então "Eh lá!!Acho que não tranquei a porta de casa quando saí, mas não faz mal porque existem assessores", algo assim parecido.

Obviamente que todo o trabalho é digno, inclusive o de advogado, mas porquê florear algo de tal maneira que soe ridiculamente especial?

quinta-feira, 10 de março de 2011

O grão de areia #3

O pequeno grão de areia continuou jazido até que a sua sorte mudou, uma forte corrente de vento elevou-o a um mundo que ele nunca antes tinha visto. Viu o que não sabia que existia e gostou.
Não tinha palavras, porque não podia falar, porque os grãos de areia não falam, para descrever o que via.

Depois de muito percorrer pousou. Pousou num sitio molhado que lhe fazia lembrar o fundo do mar mas com menos água. Estava no que parecia ser um olho.
O olho chorou e o grão de areia caiu no chão envolto pela lágrima. Ali ficou rodeado pela lágrima.
-Olá grão de areia.
O grão de areia não sabia que as lágrimas podiam falar.
-Não dizes nada? replicou a lágrima.
O grão de areia não sabia o que fazer, e atrapalhado ouviu uma voz que nunca ouvira:
-Eu não falo, porque os grãos de areia não falam.
Nesse preciso momento percebeu com uma enorme admiração que aquela voz era a sua, não percebia como, já que os peixes sempre disseram que os grãos de areia não falavam.
-Eu não sabia que falava, pensava que os grãos de areia não falavam.
-Tudo fala pequeno grão de areia, é preciso é saber ouvir.

Continua

Micuva

Deslizo e rebolo
Magoo-me e deliro
Porque sei que nada nesta vida faz sentido
Atravesso e cruzo-me
Nas encruzilhadas que vão surgindo
Com um pé de cada lado

Esqueço-me e lembro-me
E de repente não quero ser uma coisa nem outra
Opto pelo limbo
Quero
Porque sou e não o digo
Atravessa a rua e diz-me tu
Quem sou?

Diz?

Não entendi.

Repete.

Não te oiço.

Espera.

Não quero ouvir.

Prefiro assim.

segunda-feira, 7 de março de 2011

LSD

Cenário:Lavar a loiça e arrumar a mesa com o irmão.

Irmão:Oh mano sabes o que quer dizer LSD?
Eu:O nome exacto não sei, mas sei que é uma droga.
Irmão:Não é não...
Eu:Então o que é?
Irmão:Louvado Seja Deus, foi a minha professora de matemática que inventou!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O grão de areia #2

Um dia o grão de areia, imóvel na escuridão do fundo do mar, no meio de tantos grãos de areia, mas sentido-se sozinho porque não podia falar, sentiu-se estremecer, nunca sentira tal coisa, os grãos de areia debaixo dele estremeciam, até que se sentiu mover, foi algo estranho, porque nem quando era arrastado pelas correntes sentia tal sensação. Rebolou e rebolou e voltou a rebolar, batendo contra os outros milhões de grãos de areia, até que parou, mas era estranho porque sentia que estava em movimento. Repentinamente sentiu um vazio imenso, tinha a certeza que nunca tinha experimentado tal sensação, estava a cair a uma velocidade que nunca tinha caído. Sentia-se pesado.

Após a queda, para seu azar, ficou mais uma vez enterrado no meio de outros milhões de grãos de areia. Estava escuro. Ouvia uns barulhos estranhos, uns ruídos semelhantes ao que alguns peixes faziam. Tentou ouvir com atenção e perceber o que era, mas nada feito. Então ali ficou umas horas, uns dias sempre no meio da escuridão no meio de tantos outros grãos de areia, com a desvantagem que agora não ouvia as conversas dos peixes.

Suspirou de tristeza. Sabia que o esperariam muitos dias de escuridão sem nada ouvir, nem ver. Se ao menos pudesse falar, mas como se sabe, os grãos de areia não falam, sempre ouvira os peixes dizer que os grãos de areia não falavam.

Continua

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O grão de areia

Era uma vez um grão de areia, igual a tantos outros grãos de areia, que vivia no fundo do mar. Tinha a sorte de estar à superfície e não estar debaixo de outros milhões de grãos de areia, mas apesar de estar à superfície, não podia ver nada porque tudo era escuro. Por vezes as correntes marítimas ou peixes que passavam por ele azafamados, faziam com que ele se movesse, e enquanto se movia uns centímetros acima dos outros grãos de areia, sentia-se flutuar com uma liberdade imensa mas sempre dentro da densa escuridão que o oprimia.

O grão de areia não falava, porque os grãos de areia não falam, mas tinha ouvido conversas de uns peixes que diziam que lá em cima, umas barbatanadas mais acima, onde terminava o ar e começava a falta dele, que havia muita luz, luz forte que iluminava por longas barbatanadas. Os peixes tinham dito que haviam peixes com escamas estranhas, vindos de onde não havia ar e que por vezes mergulhavam com uma velocidade impressionante para comer outros peixes. Tinham bicos compridos em vez de boca e umas barbatanas enormes, uma de cada lado. Além de duas coisas estranhas que mais pareciam paus que abanavam debaixo do corpo. O grão de areia achou estranha a descrição dessas criaturas, peixes que pairavam onde não havia ar…pfff…pensou ele.

A rotina do grão de areia era monótona e apesar de estar rodeado por outros grãos de areia, não podiam falar nem se podiam mover. O passatempo favorito era ouvir as conversas dos peixes ou ser arrastado pelas correntes, era a única altura em que se sentia livre e podia voar como os peixes. Batia em rochas enormes, algas e até peixes, mas estes não gostavam muito, diziam que lhes faziam cócegas. Sempre que os grãos de areia eram arrastados mudavam de sitio e nem sempre os sítios onde ficavam eram bons. O grão de areia já tinha ficado muitas vezes enterrado, imobilizado debaixo de outros grãos de areia e sentia pena dos outros que ainda estavam mais fundo que ele, porque assim nem as conversas dos peixes eles podiam ouvir.


Continua.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Queres ver

Cenário: Almoço de família (agora mesmo vá)

Pai: Então o Renato declarou-se inocente?
Eu: Isso deve ter sido o advogado que o aconselhou.
Pai: Queres ver que o velho caiu em cima do saca rolhas...!?